A demissão coletiva da Direção da ILGA Portugal não pode ser tratada simplesmente como mais uma mudança de órgãos sociais numa associação. É a segunda vez, em apenas dois anos, que uma Direção da mais antiga associação portuguesa de defesa dos direitos das pessoas LGBTI abandona funções antecipadamente. A equipa agora demissionária tinha sido eleita em agosto de 2024, precisamente na sequência da demissão em bloco da direção anterior. Dois anos depois, chegamos novamente ao mesmo lugar. Separadamente, cada crise pode ter uma explicação, cada dificuldade pode ser justificada e cada demissão pode resultar de circunstâncias particulares. Em conjunto, começam a revelar um problema que já não é possível ignorar: a ILGA Portugal parece ter-se perdido.

Em conjunto, começam a revelar um problema que já não é possível ignorar: a ILGA Portugal parece ter-se perdido.

Dizer isto não significa apagar a sua história nem o trabalho que continua a desenvolver. Pelo contrário. A ILGA foi absolutamente fundamental para a construção da igualdade das pessoas LGBTI em Portugal e continua a assegurar serviços de apoio, espaços comunitários, formação, atividades culturais e intervenção política. É precisamente porque Portugal continua a precisar de uma organização como a ILGA que a situação atual deve preocupar-nos. Num momento em que direitos que julgávamos consolidados voltaram a ser discutidos no Parlamento, em que pessoas LGBT são novamente utilizadas como matéria de confronto político e em que movimentos conservadores aprenderam a comunicar e a mobilizar-se, seria expectável encontrar uma ILGA particularmente forte, capaz de marcar a agenda política e cultural do país. Em demasiados momentos, encontramos uma organização que reage, mas raramente consegue obrigar o país inteiro a reagir consigo.