Série das mais transgressoras da TV Globo no início dos anos 2010, Macho Man (2011) antecipava já o conceito que Jim Queen transformou numa animação impactante: um dispositivo que transforma gays em heterossexuais contra a sua vontade. No filme de Marco Nguyen e Nicolas Athané, existe uma doença chamada heterose que caricatura tudo aquilo que a cultura queer imagina dos homens heterossexuais, com humor contagiante que por vezes desliza para o estereótipo.

O filme ridiculariza diversas manifestações culturais, particularmente a obsessão fitness e a cultura influencer, oferecendo uma abordagem condenatória que deixa de lado debates mais profundos sobre homofobia e afirmação identitária. Porém, os realizadores criam um protagonista memorável: Jim, ursão e celebridade das noites parisienses que vê fama, desejo e estatuto desaparecerem quando é contaminado pela heterose.

Com uma anarquia visual impressionante, direção artística de cores vibrantes e montagem acelerada, Jim Queen evoca o espírito trocista do underground animado europeu dos anos 1970 e 80, lembrando também Rock & Hudson – Os Caubóis Gays (1994). O filme funciona como crítica sobre a necessidade de pertença e o perigo da exclusão nas redes sociais, com a qualidade de produção do estúdio Bobbypills a demonstrar excelência no trabalho com kitsch e diversos géneros cinematográficos.