Cinco meses depois de PSD, CDS-PP e Chega aprovarem na generalidade projetos que representam um recuo na autodeterminação de género, a ONU confirma aquilo que já sabíamos, Portugal arrisca trocar a ciência e os direitos humanos por uma nova política de medo.
THá palavras que a direita portuguesa passou anos a utilizar para descrever os outros e que agora começa, ironicamente, a aplicar a si própria. É a ironia mais antiga da política, a de empunhar a espada que se jurou nunca desembainhar. “Ideologia”, “identidade”, “doutrinação” e, sobretudo, “wokismo” tornaram-se armas retóricas contra qualquer transformação social que ultrapasse os limites daquilo que a direita considera aceitável. O problema é que existe uma contradição que merece ser exposta. Quando uma determinada visão moral sobre a sociedade é transformada numa norma política que o Estado deve impor a todos, estamos perante uma política identitária, independentemente de ela vir da esquerda ou da direita. É por isso que podemos falar, sem receio da provocação, de um wokismo conservador.
O wokismo conservador consiste precisamente nisso, transformar uma determinada visão moral sobre sexo, género, família ou comportamento numa norma pública, apresentá-la como se fosse a única expressão legítima da realidade e, depois, acusar de “ideologia” quem contesta essa norma. É exigir intervenção do Estado sobre identidades e corpos enquanto se proclama, simultaneamente, a defesa da liberdade individual. É denunciar a politização da identidade enquanto se constrói uma política centrada na identidade. E é neste contexto que devemos ler a carta enviada pelo Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco.


